Quando uma pessoa se torna um número.

A propósito do documentário NAZA

Há filmes que terminam quando se acendem as luzes da sala. Outros começam precisamente aí, quando já não podemos proteger-nos com a distância do ecrã. NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, pertence a essa segunda espécie.

O documentário reúne testemunhos anónimos de militares e membros dos serviços de informações israelitas. O título provém de uma sigla associada a «danos colaterais»: o número estimado de civis que poderão morrer num ataque.

Antes de a bomba cair, há pessoas observadas. Dados cruzados. Probabilidades calculadas. Mortes antecipadamente contabilizadas.

O ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, o assassínio de civis e a tomada de reféns merecem condenação inequívoca. Nenhuma dor apaga outra dor. Nenhum crime confere licença moral para cometer o seguinte.

Criticar as decisões de um governo ou a atuação de um aparelho militar não é hostilidade contra os judeus. Confundi-lo seria silenciar precisamente os israelitas que recusam o sofrimento infligido em seu nome.

A distância que adormece a consciência

O que mais perturba em NAZA não é apenas a tecnologia. É a transformação da morte numa tarefa administrativa.

Um localiza. Outro calcula. Outro autoriza. Outro executa.

Cada um cumpre apenas uma parcela. Tão pequena que pode dizer a si próprio: eu não matei ninguém.

A responsabilidade dissolve-se. A vítima desaparece por detrás de um código, de uma coordenada, de uma percentagem.

É a velha tentação de entregar a consciência à função.

Não basta perguntar se uma ordem foi corretamente executada. É necessário perguntar se deveria ter sido executada. A obediência não substitui o discernimento moral. A competência técnica não absolve. A distância não interrompe o vínculo entre a decisão e a vida destruída.

As autoridades militares israelitas contestam a descrição do filme. Sustentam que as decisões são humanas e que a tecnologia apenas auxilia os analistas. Essa posição deve ser registada, por exigência de rigor.

Mas a pergunta permanece: o que acontece à consciência quando a morte provável de famílias inteiras passa a integrar uma margem operacional?

Talvez toda a violência comece antes do golpe. Naquele instante, anterior e quase invisível, em que deixamos de ver uma pessoa.

Primeiro perde-se o nome. Depois, o rosto. Por fim, a dor do outro deixa de chegar até nós.

Deus não conhece «danos colaterais»

Para a fé cristã, ninguém é colateral.

Cada vida possui uma dignidade anterior aos Estados, aos exércitos, às fronteiras e às razões estratégicas.

Deus não vê populações abstratas. Vê a criança. O refém. O ferido. O faminto. O homem que procura a família entre os escombros.

Quando uma pessoa se torna um número, a violência encontra menos resistência interior. O eufemismo não se limita a esconder a realidade. Torna-a administrável.

No Evangelho, o bom samaritano não pergunta pela nacionalidade, pela religião ou pelas escolhas políticas do ferido. Vê-o. Aproxima-se. Cuida dele.

A guerra procura inverter esse movimento. Primeiro deixa-se de ver. Depois deixa-se de reconhecer. Por fim, deixa-se de sofrer com o sofrimento do outro.

O pecado da indiferença

Próximo
Próximo

Ícone do Baptismo do Senhor – Igreja Melquita.